Por que sou sex positive

O feminismo sex positive é um movimento que nasceu no início da década de 80 e que foca na ideia de que a liberdade sexual é um componente essencial da emancipação feminina. O movimento surgiu em resposta ao feminismo sex negative, formado por feministas que acreditam que a expressão da liberdade sexual feminina em algumas de suas formas constitui uma mera extensão da opressão patriarcal.

O embate entre essas visões antagônicas deu início ao que se apelidou de “Feminist Sex Wars”. As feministas mais “tradicionais” da segunda onda tinham visões negativas sobre pornografia e algumas práticas sexuais como a submissão ao homem e o sadomasoquismo, bem como o uso que celebridades femininas fazem de sua própria sexualidade como forma de auto-promoção, ao passo que as feministas da terceira onda as criticavam pelo julgamento das escolhas e pelo cerceamento da liberdade sexual de cada mulher.

A divergência real reside no peso que cada vertente coloca na cultura de objetificação da mulher em que vivemos em contraponto à importância da liberdade individual da mesma. É válido que se critique uma artista que se dispõe a posar nua para uma revista masculina porque coletivamente essa atitude colabora com a cultura de objetificação, por exemplo? A possibilidade que hoje as mulheres têm de usar menos roupa do que usavam há 100 anos atrás é empoderadora ou constitui uma nova amarra ao gênero feminino? É possível que uma mulher assuma uma posição de submissa sendo consciente de que este é o papel social que lhe é designado ou todas as que fazem essa escolha estão sendo coagidas pelo patriarcado?

As Feminist Sex Wars também são conhecidas como Porn Wars porque, junto com o tema da prostituição, a pornografia é de longe o assunto que gera mais atrito entre as duas frentes. A indústria pornográfica atual certamente é uma das instituições mais sexistas que existem no mundo e a maior parte da sua produção gira em torno do prazer masculino e mostra a mulher em um papel submisso. Grande parte das atrizes no ramo já declarou ter sido assediada ou abusada sexualmente. A pornografia legitima a ideia de que o corpo das mulheres pode ter valor econômico (como argumentar que não se com algum dinheiro se têm uma sex cam exclusiva?). Além disso, ela cria uma visão distorcida acerca dos corpos feminino e masculino e do próprio ato sexual e é absurdamente racista (inter-racial sex é tratado como segmento separado na maioria dos sites onde esses vídeos são disponibilizados).

Considerando esses aspectos, é difícil conceber as razões por que alguma mulher entraria numa indústria assim, mas aparentemente elas existem. E, segundo a ótica do feminismo libertário, estas razões não devem ser desconsideradas e nem deslegitimadas com afirmações de que suas escolhas são fruto de coerção. Basta ouvir o que as mulheres a quem mais diz respeito essa discussão – as atrizes pornô – têm a dizer. Elas não se sentem vítimas do machismo. Muito pelo contrário, Sasha Grey nessa entrevista afirma que seu trabalho colabora para subverter a ideia tradicional de que mulheres não gostam de sexo (ou que gostam só de Vanilla Sex), que ele retira barreiras que se colocam entre a mulher e sua sexualidade.

Os mesmos argumentos valem para a discussão em torno da prostituição. As prostitutas entraram no mercado do sexo porque internalizaram tanto os valores machistas da sociedade a ponto de acreditar que seu corpo deve servir para satisfazer homens em troca de dinheiro? Talvez sim, talvez não. É impossível mensurar o quanto dessa escolha foi produto da experiência social da profissional com o sexismo e o quanto dela foi realmente racional. Qualquer que seja a proporção, uma coisa me parece certa: o indivíduo prevalece sobre o coletivo. Se as prostitutas não querem ser tratadas como vítimas do patriarcado, elas não devem ser vistas como tal. E ponto.

Se as prostitutas e atrizes pornô não devem ser vistas como vítimas do patriarcado (ou cúmplices dele), também não devem sê-lo artistas como Miley Cyrus, que desde o lançamento do videoclipe de Wrecking Ball tem chocado a indústria da música com a expressão de uma sexualidade até então muito bem escondida pela imagem de menininha da Disney. Sinead O’Connor escreveu uma carta aberta direcionada à cantora, na qual ela alerta-a sobre como seu exemplo colabora com a indústria que trata as mulheres como cafetões o fazem e criticando-a pelo efeito negativo que ela causa ao dar esse tipo de exemplo a outras mulheres. Caso semelhante ocorreu entre Emma Watson e Beyoncé (leia mais aqui).

A pergunta é: Miley, ao se expor nua e de forma sensual no seu clipe, colabora com a liberação sexual da mulher? Com a diminuição do estigma da mulher com base no seu comportamento sexual? Ou será que ela colabora mais com uma cultura que só valoriza a mulher por sua sexualidade? E a resposta é: não interessa. Miley é mulher, é dona de seu próprio corpo e não deve se sujeitar a um comportamento de “boa moça” somente porque uma corrente do feminismo considera seu comportamento um desserviço à causa, se este comportamento não lhe agradar.

Atribuir o fenômeno da objetificação à existência de mulheres que se sujeitam a esses papéis é mais uma forma de retirar a agência da mulher que projeta sua sexualidade voluntariamente e de culpabilizar a mulher que tem sua imagem vista dessa forma contra sua vontade. Em suma, machismo disfarçado de feminismo sex-negative.

Defender o fim de uma forma de coletivismo – no caso discutido, o fim da objetificação sexual da mulher – não implica necessariamente tecer críticas aos indivíduos que tomam atitudes que, aparentemente, o reforçariam. Ser sex positive não é ser a favor da opressão sobre as mulheres e nem compactuar com a cultura que as objetifica quer elas aprovem ou não. Ser sex positive é apoiar a verdadeira liberdade sexual da mulher, liberdade de não seguir os padrões ditados pelos homens, mas também de não ter que arcar com a responsabilidade de ser um exemplo de como a sociedade deve ver as mulheres. Liberdade de ser como achar melhor.

* Publicado originalmente no Mercado Popular. Escrito por Beatriz Martins.

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